domingo, 23 de setembro de 2007

O Lobo

Eu sou o lobo...

E por mais que possam ter arrancado as minhas presas e cortado as minhas garras, eu sou o lobo...

Pois um lobo não se faz por sua pele ou por seu sangue, mas sim por seus instintos, e eu sou o lobo...

Não queria se enganar... Cães podem ser domesticados, cães são leais, cães são submissos... Não espere que eu abane meu rabo para você, pois eu sou o lobo...

Lobos seguem seu instinto por sangue. Enquanto você os mantiver saciados eles podem estar ao seu lado, mas, qualquer nova presa os afastará de você. Tome cuidado, eu sou o lobo...

Meus olhos te ferirão e te usarei como a mais insignificante das presas que é. Desejo a sua carne e nada mais. Lembre-se, eu sou o lobo...

O lobo é o que sou...

Colaba

Cordas da Vida

Eu sempre procurei o algo a mais. Não que eu só me contentasse com o melhor. Não, longe disso. Talvez fosse apenas o instinto humano em busca de sobrevivência. Mas hoje, a luta que já foi por comida, território e poder, se transformou pela busca pela mulher mais bela, a melhor casa, o carro do ano, o cargo nas grandes corporações, as grandes corporações. É... O ser humano anda cada vez mais selvagem. Será? Talvez as mesmas coisas que nossos ancestrais buscavam, nós busquemos hoje. Talvez as intensidades e os nomes sejam diferentes. Talvez, e apenas talvez...

O certo é que todos – e me incluo infelizmente nesse todo – desejamos manipular. O que não percebemos, talvez apenas por não abrirmos nossos olhos, é que todos somos marionetes nesse grande jogo chamado vida. E por mais que estejamos manipulando várias marionetes – sim, pois desde nossos filhos e criados que fazem o que desejamos, à mulher que induzimos ao sexo simplesmente pelo prazer, de um modo ou de outro, com flores ou dinheiro, manipulamos – sempre teremos as nossas cordas nas mãos de outro alguém. Seria isso Deus? A vida é mesmo injusta...

E o grande manipulador, que desde sempre somente soube brincar conosco, deve andar a se divertir, ao lado de seus asseclas, com todas as marionetes em suas mãos. Todas descartáveis, diga-se de passagem, que quando atingem seus objetivos, são deixadas de lado ou postas à mofar. Sempre foi assim. Sempre...

Hoje entendo a insanidade, talvez por me aproximar tanto deste estado, e não sei ao certo se isso é bom ou ruim. O conhecimento sempre foi a maior busca do homem, à frente de todos os outros motivos, mesmo que não pareça. Mas o conhecimento fere. Antes eu não soubesse...

Colaba

A Longa Vereda

Mais um dia comum. Eu, cercado de outros iguais a mim, trilhando meu caminho por uma estrada de terra sem fim, sob um sol escaldante a me fustigar.

Passo por homens caídos... Sinto a cabeça pesada! Tiro meu elmo, e posso sentir meu suor. Não, não se trata apenas de suor. Tenho a boca invadida... O gosto férreo de meu sangue misturado ao meu suor me dá ânsia!

Até quando?

Chegamos à mais uma aldeia. A recepção das crianças é sempre a mesma... Correndo, sorrindo e brincando.

A mão na cabeça de uma, um sorriso falso para outra. Tenho que me mostrar forte agora. Não posso mostrar fraqueza. Não posso mostrar meus medos!

Até quando? Até... quando?

Colaba

Despedida

Despedidas nunca foram agradáveis para ele. Mas afinal, para alguém o é? Ele já nem podia mais responder a essa pergunta. Apenas podia afirmar que, em certos momentos, elas eram necessárias. E ele encontrava-se justamente em um destes raros e desagradáveis momentos.

Como diria para sua mãe, que iria para tão longe? Como lidaria com a reprovação de seu pai? Com que olhar encararia seu cachorro? Com que doces palavras enxugaria as lágrimas de seu grande amor?

Ele não podia... E sabia disso. Por mais que pudesse se esforçar, nunca diria tudo o que era necessário. As palavras lhe prenderiam a garganta, e o choro, lhe turvaria a visão.

Lembrou-se dos pequenos detalhes. De fazer sua cama, e tirar sua escova-de-dentes do armário do banheiro. Sua mãe não merecia ter que arrumar suas coisas depois que ele partisse.

E meio à suas pequenas coisas, encontrou muitas lembranças. Nunca poderia dizer como se sentiu bem, toda vez que sua mãe lhe dera um de seus beijos medicinais, ou ainda, quando seu pai, mesmo cansado, o acolhia em sua cama quando na presença de maus um de seus pesadelos. Não poderia expressar todo o contentamento pela companhia do pequeno animal, nos dias mais chuvosos de sua vida, muito menos, como se apaixonou com aquele primeiro sorriso.

Ele não podia dizer, mas podia escrever. E num pequeno pedaço amassado de papel, escreveu tudo o que desejava falar, e terminou num belo e grande ‘adeus’.

Ele já podia partir. Apertou mais uma vez então o nó em volta de seu pescoço, para finalmente jogar-se daquele banco.

Colaba

O Vôo do Urubu

Urubus voando ao meu redor. Parece que apenas esperam o momento em que minhas forças, já exauridas, finalmente acabem, e meu corpo, já desfalecido, toque o chão.

Por que me deixastes aqui?

Sinto em minha já cansada mão direita, o peso do grilhão que me colocaste. À um primeiro olhar, belo e brilhante. Porém, aos meus olhos, o fardo mais cruel de todos.

Por que me deixastes isso?

Fúria... Palavras me vêm à boca. Palavras sempre foram somente palavras. O sentimento ainda é maior do que todas elas. Não seria eu, em minha pequenez, que poderia expressá-los.

Por que me deixastes assim?

Já não sei se são os urubus que me esperam, ou se sou eu quem os espera. Entrego-me às lágrimas... Aos urubus... À morte... À você!

Por que me deixastes?

Colaba

Bons Tempos

Ela sempre esteve ao seu lado e ele sempre fora grato por isso. Ele sorri, e segura firmemente a sua mão.

- É querida, passamos bons momentos juntos...

Um beijo na testa da amada. Ele acaricia os cabelos agora grisalhos, e ao fitá-los, recorda-se dos dias em que eles eram negros como o carvão.

Ela olha para ele. Uma lágrima escorre por sua face, e a água escorrendo lhe remete à outras lembranças...

Ele lavando seu recém adquirido carro, no auge de seus trinta anos. Ela aparece, bela tal qual uma ninfa. Seus vinte e poucos anos lhe eram agradáveis, e certamente ela lhe daria belos filhos, seu maior sonho.

O dia parecia propício para isso, e ela transparecia fertilidade. Ele a via nua, sob aquele vestidinho florido que insistia em lhe marcar todas as curvas.

Ela se aproxima calmamente e lhe beija a boca. Parecia que vinha para lhe ajudar, já que pega a bucha, totalmente embebida de sabão, e se dirige ao carro.

Ledo engano. A pequena entorna todo o balde cheio de espuma em sua cabeça. Ela era uma moleca, e era isso o que mais ele amava nela. Ela lhe fazia sentir-se jovem.

Num impulso, ele aponta o esguicho d’água que segurava em direção à mulher. A água fria escorre por seu corpo e ela corre para se proteger.

Um grito, um caminhão, uma buzina...

Piiiiiiii!!!!!!!

- ENFERMEIRA!

Ele está de volta, de frente ao leito de sua mulher. Os aparelhos buzinam. Ele delicadamente fecha os olhos da doce amada. Sabe que ali morre uma grande parte dele. A mais bela de todas...

Colaba

Olhos de Menina

Sexta-feira... Não existe pior dia em toda a semana para se fazer hora-extra. Nunca antes me apeguei à superstições baratas, e não seria agora que o faria, mas começo a me indagar, e sinto certo pavor ao perceber isso, se não seria mal do dia em que vivia. O certo é que, independente das superstições, nessa sexta-feira treze, trabalho até as sete e dez da noite, duas horas e dez minutos além de meu expediente normal.

Lá fora, a noite parece refletir todo o meu humor: céu negro e a chuva fina, que parece fazer questão em me castigar enquanto subo a avenida desértica e escura, cabisbaixo, com medo de ser assaltado novamente. Segurança é uma das palavras que, com os anos de vivência nessa cidade imunda, aprendi a não respeitar.

Poucas pessoas a passar pela rua. Todas ridiculamente e exageradamente estranhas. Talvez seja o estado de apreensão em que me encontro. Talvez não... E ainda talvez, ridículo não fosse a palavra mais adequada para tal quadro. A palavra assustadoramente, sem sombra de dúvidas se encaixaria muito melhor à situação.

No ponto-de-ônibus, encontro um quadro muito semelhante. Talvez até um tanto quanto pior. Três, quem sabe cinco pessoas, que não se olham, e ficam visivelmente irritadas quando as fito. Começo a pensar se eu também não ficaria. Não encontro resposta para isso. Mas algo me diz que certamente, meu dia ainda poderia piorar...

Sete e meia. Meu ônibus, parecendo estar tão cansado quanto eu, finalmente chega ao ponto. Esboço um falso sorriso amarelo ao motorista ao entrar, e entrego um amassado passe para o cobrador. Passo a roleta com dificuldade, pensando se esta não poderia ser um pouco mais estreita, e me sento na primeira cadeira, a que tem à sua frente o vidro que separa a ala da frente, com a de trás do ônibus. Em síntese, a separação de idosos e pessoas ativas.

O tédio me consome! Não vejo a hora de pisar em casa e tomar um belo banho quente. Eu sei que merecia isso e que não estava muito longe de alcançá-lo. Mas nem mesmo o som do ônibus vazio partindo de meu ponto, rumando para o tão sonhado banho, me oferece algum motivo para sorrir.

Dois quarteirões, e o ônibus novamente para. Uma senhora idosa, e uma pequena garota loira, com os cabelos presos em duas trancinhas, dos olhos grandes e azuis, aparentando ter cinco, talvez quatro anos e que insistia em segurar firmemente a mão direita da mulher, se sentam numa cadeira entre o vidro e eu.

Meu pensamento está longe, estou absorto em meus problemas e preocupações, quando percebo a pequena, a me fitar com seus enormes olhos azuis. Retribuo o olhar, e o complemento com um leve sorriso de canto de boca. Posso ver sua alegria, quando me devolve um enorme sorriso. Ficamos sorrindo e olhando um para o outro, num breve espaço de tempo, que parece se transformar em uma eternidade.

Ela começa a desenhar nas janelas embaçadas do ônibus. Estrelas, corações e alguma escrita que não consigo entender, talvez fruto de sua imaginação. Faço o mesmo, e me pego desenhando em uma janela de ônibus. Ela fica feliz. Eu já me sentia feliz!

Mas ela não estava só, e nesse momento, a velha que a acompanhava, provavelmente sua avó, começa a me olhar de um modo reprovador. Será que ela poderia pensar que eu teria algum pensamento ruim para com a garota? Não poderia ser... Mas seu olhar continuaria a me reprovar por muito tempo.

Acabo me distraindo da pequena. Achava melhor não dar mais motivos para que a ignorância da velha pudesse criar novas sujeiras em sua mente. Mas não consigo ficar assim por muito tempo, pois vendo que eu deixava de lhe dar atenção, a garotinha começa a apagar seus desenhos. Ela tenta também apagar os meus, mas seus bracinhos não os alcançam. Eu os apago, vendo que era isso que seus olhos me pediam. Ela sorri novamente.

Foi então, que pela primeira vez, posso ouvir sua suave voz. Ela começa a cantar algo, que não consigo entender, por causa do barulho do motor. Em minha cadeira, também canto algo. Por mais que tenha cantado por um certo tempo, não posso me recordar da canção. As palavras vinham de minha alma, não de minha boca.

Já não é mais apenas a velha que começa a ter maus pensamentos sobre minhas intenções com a garota. Agora, o cobrador tenta começar a chamar sua atenção, para que ela esquecesse de mim, e fosse falar com ele. Gente ignorante. O mesmo quadro negro de outrora, volta a meus olhos. Por que eu não podia ficar simplesmente com aquele belo quadro multicolorido? Aquele arco-íris de alegria...

Mais uma vez, me distancio da pequena. Mas não por muito tempo, pois esta, começou a fazer caretas para mim. Encostando seu nariz no vidro, mostrando a língua. Meu coração gargalha, e começo também a fazer caretas para ela.

Estou segurando o cano que segura o vidro de separação, quando finalmente ela toca a minha mão. Um frio enorme me toma a espinha. Sinto o coração bater mais forte, e acaricio sua pequena mãozinha.

Vôo muito longe, enquanto acaricio a delicada e macia mão. Começo a pensar, como um pequeno gesto de uma garotinha, podia ter mudado um dia tão ruim. Fico realmente feliz. Ainda bem que a inocência das crianças, está acima da ignorância dos adultos. O que apenas os adultos fizeram crescer e arder, com pouco esforço, uma criança consegue desfazer.

Acordo de meus pensamentos, com os gritos da velha, que puxa a garota para longe de mim, chegando a machucar o braço da pequenina, que chora. Todos no ônibus me olham com ar de reprovação.

- Aonde já se viu, homem do teu tamanho se engraçar por uma menininha... Eu devia era chamar a polícia!

Eu apenas sorrio para a mulher. Não tenho palavras para rebater a sua ignorância. Mais uma vez um adulto consegue apenas destruir, com palavras, o que um simples olhar de uma criança consegue construir.

Fico feliz ao ver que o ônibus se aproxima de meu ponto. Puxo a corda e ouço o sinal para que o motorista pare. Ele para em meu ponto. Desço, ainda sob a chuva que se torna mais forte, e posso ver a garotinha acenando com a mão, me dando um tchau e me fitando com seus enormes olhos pueris.

Um sorriso toma o meu ser, enquanto aceno de volta para ela...

Colaba