domingo, 30 de agosto de 2009

Ponto

Cheguei ao limite.
Dessa relação rasa
Que me rasga
tão profundamente
e derrama lágrimas que
não tenho por você.
Que dói toda vez que percebo
que até mesmo o outro
desejado insanamente
é uma versão rabiscada
de mim.
Não agüento esses dias que acordo
completamente apaixonado
por um você que
não existe.
Quero calar esse sentimento
e arrancar você na unha
e depois costurar o rasgo
com linha preta
para marcar o luto
da morte profunda
de um sentimento absurdo,
um amor idiota,
da melhor história do mundo.

Carol Moraes

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Amor e Amizade

Perguntei a um sábio,
A diferença que havia
Entre amor e amizade,
Ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
A Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
A Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
Na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
E com carinho cultivado,
A Amizade vem faceira,
E com troca de alegria e tristeza,
Torna-se uma grande e querida
Companheira.
Mas quando o Amor é sincero
Ele vem com um grande amigo,
E quando a Amizade é concreta,
Ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
Ou uma grande paixão,
Ambos sentimentos coexistem
Dentro do seu coração.

William Shakespeare

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poética do Eremita

Foto: http://proboszcz.deviantart.com/art/Alone-with-sea-86774632

No deserto estão secas
As pedras que no mar se molhavam
A semelhança confunde o eremita que solitário demais
Passou o tempo entregando-se à solitária memória
Aqui a pedra seca
Para o eremita não perdeu
A qualidade húmida de poder
Ter estado ao pé do mar.

Fiama Hasse Pais Brandão

Musicado por Adriana Calcanhotto: www.youtube.com/watch?v=-2d8I5Xxp_c

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quando Eu Morrer Quero Ficar

Foto: http://jstasilentscream.deviantart.com/art/Rain-when-I-die-92140037

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No pátio do colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assitirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Mário de Andrade

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Amor e Crença

Foto: http://perhydrol.deviantart.com/art/God-that-s-for-you-55285301

Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo
Ser que preside e rege os outros seres,
Que os encantos e a força dos poderes
Reúne tudo em si, num só encanto?

Esse mistério eterno e sacrossanto,
Essa sublime adoração do crente,
Esse manto de amor doce e clemente
Que lava as dores e que enxuga o pranto?!

Ah! Se queres saber sua grandeza,
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!

Deus é o templo do bem. Na altura Imensa,
O amor é a hóstia que bendiz a Crença,
ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!

Augusto dos Anjos

terça-feira, 28 de julho de 2009

Uns Versos

Foto: http://starg691.deviantart.com/art/The-songwritting-process-98505903

(Adriana Calcanhotto)

Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro,
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele
O seu casaco

Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo
pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo


Link Musica: http://www.youtube.com/watch?v=1nLoY_Bd6m0

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Receita de Mulher

Foto: http://quaerion.deviantart.com/art/Love-Recipe-113112219

Os olhos de preferências grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto
A da terra. (Vinícius de Morais)
O semblante, redondo
Sombrancelhas arqueadas
Negros e finos cabelos
Carne de neve formadas. (Thomaz Antônio Gonzaga)
Simpáticas feições , cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos. (Gonçalves Dias)
Verde carne, tranças verdes. (Garcia Lorca)
Lábios rubros de encanto
Somente para o beijo. (Junqueira Freire)
A sua língua, pétala de chama. (Cândido Guerreiro)
Nos lobos das orelhas
Pingentes de prata. (Gonçalves Crespo)
Mão branca, mão macia, suave e cetinosa
Com unhas cor de aurora e luz do meio dia
Nas hastes cor-de-rosa. (Luiz Delfino)
Os braços frouxos, palpitante o seio. (Casimiro de Abreu)
O dorso aveludado, elétrico, felino
Porejando um vapor aromático e fino. (Castro Alves)
Seu corpo tenha a embriagues dos vícios. (Cruz e Souza)
Com mil fragrâncias sutis
Fervendo em suas veias
Derramando no ar uma preguiça morna. (Teófilo Dias)
Nadegas é importantíssimo
Gravíssimo porém é o problema das saboneteiras
Uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. (Vinícius de Morais)
As curvas juvenis
Frescas de ondulações de forma florescente
Imprimindo nas roupas um contorno eloqüente. (Álvares de Azevedo)
Qualquer coisa que venha de ânsias ainda incertas
Como uma ave que acorda e, inda mal acordada,
Move, numa tonteira, as asas entreabertas. (Amadeu Amaral)
De longe, como Mondrians
Em reproduções de revistas
Ela só mostre a indiferente
Perfeição da geometria. (João Cabral de M. Neto)
Que no verão seja assaltada por uma
Remota vontade de miar. (Rubem Braga)
A graça da raça espanhola
A chispa do Touro Miura
Tudo que um homem namora
Tudo que um homem procura. (Paulo Gomide)
E todo o conjunto deve exprimir a inquietação e espera. Espera, eu disse?
Entao vou indo, que senão, me atraso!

*Vinícius que me perdoe plagiá-lo. Mas beleza é fundamental.

Millôr Fernandes