terça-feira, 31 de março de 2009

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Conquistando um Geminiano

As asas do pensamento animam o signo do movimento, da busca do conhecimento e da comunicação... Estimule sua curiosidade, sempre, assim vai manter o geminiano conectado ao seu site. Mas não o obrigue a ficar parado por muito tempo no mesmo lugar fazendo a mesma coisa, tampouco o afogue em complicados jogos emocionais - isso vai deixá-lo completamente nervoso e asmático e poderá desaparecer sem deixar rastros.

Fascinados pelas palavras e pelos mundos que elas trazem em si, adoram conversar. Eloqüentes, são capazes de ficar falando durante horas, não para se exibir, mas porque gostam de compartilhar suas idéias e informações com as pessoas. (Há os tipos calados também, mas pode ter certeza que sua mente fala pelos cotovelos.) Não espere, contudo, que ele consiga ficar ouvindo longas exposições, a não ser que o tema seja muito interessante e abra possibilidades para muitos outros assuntos. Só pra lembrar: não conte toda a sua vida de cara. Evite relatórios e jamais, "never", "jamais" peça isso a ele, pois presa muito sua liberdade. Como um signo de Ar, regido pelo planeta Mercúrio, comporta-se como o metal que tem esse nome... Nem se canse em tentar prendê-lo.

Já deve ter dado pra notar que esse pessoal não é muito "físico", o adjetivo "volátil" seria adequado. Portanto, se você é do tipo afobadinho, trate de se acalmar. Para "alguma coisa" acontecer, há que seduzi-los com palavras, fazê-los pensar, compartilhar atividades culturais, conhecer lugares e gente interessante. Certamente o ser de Gêmeos vai mantê-lo bem informado, mas convém você também ter o seu estoque de novidades bem carregado para atrair sua atenção. Lúdicos e bem-humorados, têm muito senso de humor e adoram rir, inclusive de si mesmos... Brinque com eles.

Ao convidá-lo para sua casa, deixe livros espalhados pelo ambiente, isso pode ser muito inspirador, acredite se quiser. Irrequieto e agitado, uma maneira de sossegar um geminiano é fazer uma boa massagem nos seus ombro, braços e mãos. Talvez precise de alguma isca para convencê-lo a se sentar: mostrar alguma música que ele não conheça pode funcionar... Música calma, claro, do contrário sairá dançando loucamente no meio da sala.

Caso você queira alguém sempre a seu lado olhando (e babando) pra você, que chegue sempre no horário marcado e siga o roteiro programado, que diga dez vezes por dia que o ama, bem, desista. Mas se quer uma vida sem rotinas, algo como um desenho animado ou um game interativo, abra suas asas e boa viagem...

Amanda Costa

Signo de Gêmeos

De manhã, você pegou uma conversa entre seu sócio e um camarada muito empertigado, que expunha com ares de sabichão as inúmeras vantagens da instalação de um novo equipamento a laser na empresa. Acidentalmente, este mesmo camarada estava sentado na mesa ao lado, quando você foi tomar seu chope de fim de tarde - só que parecia ser outra pessoa, pois atacava piadas de papagaio com a ginga de um malandro carioca. E não é que na manhã seguinte, por acaso, você cruza com este mesmo indivíduo na porta da escola das crianças, e ele está pacientemente arrumando a mochila do filho e fazendo uma preleção sobre a falta de educação que é ficar contando piadas de português para a professora. Você vai pensar que está tendo miranges, ou que o tal camarada tem vários clones espalhados pela cidade. Bobagem. O doutor esnobe, o piadista escrachado e o pai cheio de dedos são uma única e mesma pessoa: um camaleão geminiano.

O velho adágio "la donna è mobile" pode ser aplicado à perfeição aos homens, mulheres e crianças de gêmeos: eles são seres voláteis por natureza, que mudam de postura e opinião com a mesma sem-cerimônia com que mudam de roupas, hobbies, simpatias e antipatias. E não é porque eles não saibam o que querem - é que não conseguem se decidir entre tanta coisa que o mundo oferece e, na dúvida, decidem-se por tudo. O próprio mito relativo ao signo, dos irmãos Castor e Pollux, filhos de Zeus (disfarçado de cisne) e da mortal Leda, explica tudo: o geminiano é um caso de dupla personalidade crônica, ou, na mais emocionante das hipóteses, de múltipla personalidade, mesmo.

O geminiano é regido pelo planeta Mercúrio, o mais esperto e inquieto dos corpos celestes. Isso lhe dá, além da personalidade camaleônica, a capacidade de fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo, com um pé nas costas. Aquele senhor mencionado acima, por exemplo, é capaz de ler jornal, atender nove telefonemas, ditar uma carta comercial e revisar os originais de seu livro de memórias simultaneamente, e isso no espaço de quarenta minutos. E de falar com desenvoltura sobre qualquer assunto, das últimas do Dalai Lama às últimas cotações da Bolsa de Tóquio. Pode ser que diga uma ou outra mentirinha sobre a fuga do Dalai do Tibet, ou certa invencionices sobre a flutuação das ações. Não tem importância - o geminiano não mente de propósito, apenas sofre de excesso de imaginação. Ele será sempre mais caleidoscópico do que a monótona realidade.

Marília Pacheco Fiorillo e Marylou Simonsen

quinta-feira, 26 de março de 2009

A Arte de ser Feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus
dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

Não Entendo

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só de vez em quando vem a inquietação:
Quero entender um pouco.
Não demais, mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

Vilarejo

(Marisa Monte)

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-la
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando...
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for...

terça-feira, 24 de março de 2009

Hamleto

Todo o homem inteligente, que tenha lido durante a vida mais de dez livros de literatura, sente um delicado abalo e um ligeiro frêmito nervoso agitarem-lhe o coração, todas as vezes que vê anunciado, por um ator de nome, o inabalável Hamleto de Shakespeare.

E só com o Hamleto acontece isso. Donde lhe virá tão transcendente privilégio? Qual o segredo da magia dessa misteriosa obra de arte, que assim acorda ao mesmo tempo mil impressões, sem que destas nenhuma entretanto se definisse até hoje claramente?

Todos conhecem Hamleto; muitos o discutem; ninguém o nega; todos o aceitam; todos o desejam; todos o amam doidamente; mas ninguém o explica; ninguém o define, porque o próprio Hamleto não se explica, nem se define a si mesmo. Não se define, porque ele próprio é a mesma dúvida; é a mesma contradição; ele é o indefinido afeiçoado por um poeta de gênio.

Anunciado o Hamleto, correm todos a vê-lo inda uma vez; mas, por melhor que seja a interpretação que lhe dê o artista ninguém até hoje saiu do teatro amplamente satisfeito por ter visto mover-se em cena o Hamleto sonhado pelo seu coração e pela sua inteligência.

Nenhum trágico deu jamais ou será capaz de dar ao vivo esse tipo-enigma, esse idolatrado mito, que vive na imaginação de todos, porque fia Hamleto, posto que muito humano, não é homem.

Não é um personagem em arte, é um símbolo. É a dúvida, intangível e incorporável como o indefinido. E nisso está o seu valor. Todos o compreendem, mas ninguém o define em crítica, nem o traduz em cena satisfatoriamente.

Todos o sentem; todos o compreendem; todos o conhecem, como a um íntimo e querido companheiro da sua própria alma e da sua própria incerteza. Pelo espírito de todo o homem inteligente, por mais curta, mais longa, mais tranquila ou agitada que seja a sua vida, já pelo menos uma vez, atravessou essa misteriosa sombra, com o seu olhar estranho, embaciado pela indefinida tristeza da dúvida. E essa sombra nunca mais se apagou desse espírito.

Por todo o cérebro, iluminado pelo menos por uma idéia, já algum dia se arrastou gemendo a desvairada melancolia de Hamleto, perguntando à dor da sua prórpia dúvida, o irrespondível "ser ou não ser"? E o eco desse gemido sem resposta aí ficou gravado para sempre, como a saudade de um amor, ou como o remorso de um crime.

Shakespeare, que formou genialmente os seus tipos com a intensidade das próprias paixões que eles sintetizam; ele que criou o Ciúme com o próprio ciúme; a Loucura com a própria loucura; a Avidez com a própria avidez e o Amor com o próprio amor - fez o Indefinido com o próprio indefinido.

Se Hamleto não fosse contraditório; se fosse explicável e coerente, seria incoerente e contraditório, e nunca seria Dúvida.

Ele é todo feito de contradições; é enérgico e vacilante; indiferente e apaixonado; vingativo e carinhoso; louco e sensato; hipócrita e sincero; paciente e desensofrido; prudente e arrebatado; generoso e pérfido; é bom e é cruel; é bom filho, e é mau filho. As suas lágrimas são escardinhas e o seu sorriso dói. O seu amor é uma queixa contra o seu próprio amor, e o seu ódio é a seiva e é a vida do seu coração. Ele é a Dúvida, que só se define pela dúvida. Ele é a Contradição, que só se afirma pela contradição. Ele é enfim o indefinido.

Ele é o Indefinido quando diz a Ofélia que nunca a amou, mas que a ama agora, contanto que ela nada espere desse amor e se recolha a um convento. Ele é Contradição quando diz que todos os homens, sem excetuar nenhum, nem ele próprio, são miseráveis, tendo afirmado que seu pai, o rei da Dinamarca, era tão belo modelo de valor e virtudes que só aos deuses podia ser comparado. Ele é contradição no seu extremoso amor filial, porque ele é o carrasco de sua própria mãe. Ele é Contradição quando, tendo já se encontrado e entendido com o espectro de seu pai, que lhe faz revelações imprevistas, vem depois, no célebre monólogo do terceiro ato, falar-nos dessa outra margem oposta à da vida, a morte, donde, afirma ele, nunca ninguém voltou ao mundo que habitamos. Ele é Contradição quando, tendo friamente assassinado Ofélia com a sua cruel indiferença, lança-se diante do cadáver dela, desafiando a quem na terra a possa amar mais do que ele.

Toda essa contradição é a Dúvida.

E porque Hamleto é a Contradição, Hamleto é inexplicável, é vago, é sombra que escapa à grosseira vista dos sentidos, e só pode ser bem julgada e compreendida pelo espírito e pelo coração. Ele, só dentro de nós mesmos, existe real e perfeito; desde que qualquer arte plástica pretenda dar-lhe forma, as suas fantásticas proporções logo se amesquinham, e Hamleto deixa de ser Hamleto como todos o conhecem.

Hamleto fora da nossa imaginação é um polvo fora d'água.

Ele pertence a todos e pertence a cada um em particular. O abalo que se experimenta ao ouvir o seu nome mágico parece a cada indivíduo um caso privado de simpatia. É que Hamleto é a misteriosa expressão da dúvida de cada um de nós. Todos nos embriagamos com esse doloroso e eternal idílio entre o conhecido e o desconhecido.

Pensar em Hamleto é pensar em Ofélia. Menos ideal do que ele, mais terrena, mais sensual, ela é também ainda assim uma visão intangível. Ofélia, toda branca, toda loura, toda amorosa, esbate-se como sombra abraçada à sombra de Hamleto; mas a loucura que nele é sonho e embriaga, nela é realidade e dói.

Só um instante ela é mulher. A sua carne de virgem desaparece desde que ela inclina a dourada fronte, vencida n'alma pela irresistível dúvida do seu príncipe incompreensível, e a pensativa sombra de Hamleto arrasta-a para o indefinido.

Ofélia é triste e contraditória estrela, que se acende à luz do dia e desmaia à sombra da noite. É uma estrela afogada na noite da Dúvida.

O seu diálogo com Hamleto é o melancólico idílio de uma luz que morre e suspira com a treva que geme e arqueja.

Há por entre as suas frases doloridas todos os soluços da miséria humana, como entre as de Hamleto há toda a velha agonia da dúvida em que nos arrastamos na vida.

- Eu te amei... Outrora...

- Assim o supus...

- Não devias acreditar... Eu nunca te amei...

- Ai!...

- Entra para um convento... não queiras ser mãe de pecadores. Nós somos todos miseráveis... Fecha-te num claustro...

- Os mimos de amor que me destes aqui os tendes, levai-os... já não têm perfume... o coração que me deu já me não ama...

- Ah! Ah! és virtuosa?...

- Senhor...

- És... bela?

- Meu senhor...

- Bela e virtuosa. Separa a tua formosura da tua virtude, porque a beleza tem garras fortes e a virtude fraca defesa...

- Meu senhor...

- Entra para um convento... Eu supunha que te amava dantes... Só agora é que te... Faze-te freira...

E a estrela apaga-se de todo e a treva fecha-se na treva, deixando para sempre no espírito de quem escutou o seu idílio a saudade que unia música indefinida, feita de suspiros e de soluços.

(...)

E, pois, quinta-feira passada corri ao teatro Lírico. E o Sr. Novelli disse-me do palco, não sei em nome de quem, que Hamleto era "Histrião por vingança".

E, com efeito, um calculado doido começou com a sua calculada loucura a intrigar, nem só todos os outros personagens da peça que se representava, como a mim próprio e aos outros espectadores que o ouviam.

Desconheci a tragédia. No fim de algum tempo perguntava a mim mesmo quem seria aquele violento intrigante, aquele sensual dinamarquês que vociferava contra os seus companheiros de cena.

E, a proporção que o Sr. Novelli refundia Shakespeare, Hamleto, a misteriosa sombra que persiste dentro de todo o homem que já leu dez livros literários, ia-se a pouco e pouco afastando de mim, até que, ao terminar o espetáculo, quando o falso doido estica-se e morre, já o meu querido e misterioso Príncipe da Dúvida, que nunca me abandonara o espírito desde que o conheci, tinha de todo me fugido; e eu comecei a sentir-me só, frio, abandonado moralmente, viúvo de um velho companheiro espiritual.

Tive vontade de chorar.

E então apoderou-se de mim um desejo forte, desensofrido de ver Hamleto, de ouvi-lo para matar saudades, de senti-lo vivo, para me convencer de que o Sr. Novelli não o tinha assassinado para sempre.

Corri a casa e reli avidamente o divino poema da Dúvida.

Ah! felizmente, antes de adormecer, já de olhos fechados, achei de novo a querida sombra pensativa; estava defronte de mim, imóvel, a fitar-me com um triste olhar de tédio e de desdém, como se eu tivesse culpa do que, sucedeu quinta-feira no teatro Lírico.

Ela voltou, felizmente, mas do susto de a ter perdido é que já ninguém me livra.

E, agora, juro que o Sr. Novelli não ma roubará outra vez, ainda que por cinco minutos.

Nada, com cousas sérias não se brinca!

Aluísio de Azevedo