Impossível não é um fato. É uma opinião.
Impossível não é uma declaração. É um desafio.
Impossível é hipotético.
Impossível é temporário.
IMPOSSIBLE IS NOTHING.
Quando eu era pequeno e jogava bola no colégio, sempre existia um muro.
Alto e com um cachorro brabo do outro lado.
E a bola, invariavelmente caía do outro lado. No melhor do jogo.
Azar.
O cachorro tinha um dono. Bernardo. Torcedor do Sport. A gente sabia pela imensa bandeira rubro-negra na janela do casarão.
E Bernardo não devolvia a bola, nunca.
A gente também nunca viu o Bernardo. Ele nunca dava as caras. Rico e orgulhoso.
O jogo parava e a gente tinha de esperar até alguém conseguir uma outra bola.
Porque bola era luxo. Se ganhava no aniversário. Por vezes no Natal. E só.
Mas sempre aparecia alguma bola dias depois. Vinda não sei de onde. Quem sabe de outros muros?
O jogo recomeçava. Todo mundo morrendo de medo de chutar mais forte.
Até que dias depois, pimba! A bola era chutada por algum perna-de-pau e ia parar no quintal de Bernardo.
O cachorro gritava. E todo mundo, com medo, ficava esperando o futuro.
Mesmo assim, a infância era feliz. Tinha bola de gude, que nunca caía na casa de Bernardo.
Tinha pipa. Tinha polícia e ladrão. Tinha Fratelli Vita.
Os anos se passaram e o mundo mudou.
Mas sempre que a velha turma se encontrava, lembrava das bolas e do muro. Do cachorro. De Bernardo.
Foi então que ano passado, tive uma surpresa.
Fui visitar o velho colégio. Colégio que vai deixar de ser colégio. Vai virar shopping center.
Uma das irmãs de caridade me reconheceu. Sempre passo por lá no Natal. Estava triste com o fim da escola.
De repente, comentou:
- O antigo casarão também vai virar shopping center! Vão derruba-lo depois do Natal.
Pensei em Bernardo. Na certa iria lucrar uma barbaridade com a venda do imóvel.
Antes que eu pudesse completar meu raciocínio, a irmã apontou um homem sentado no jardim:
- Lembra dele? Era o menino que morava no casarão.
Lá estava Bernardo. Olhando para o jardim, o campinho de terra, a velha quadra de basquete.
Bernardo estava sentado em uma cadeira de rodas.
Não pude deixar de caminhar até ele. Apresentei-me. Eu era o velho menino que chutava as bolas para seu quintal.
Surpreso, Bernardo olhou para mim. Lembrava das bolas.
Perguntei pelo cachorro. Ele disse que Manga, esse o nome do cachorro, havia morrido há muito tempo.
Sorrindo, Bernardo me contou que lembrava das bolas que iam cair no seu quintal.
De como ele sofria ouvindo nosso gritos de gol. Ele que não podia jogar.
Manga ficava muito zangado quando a gente jogava. Ele sofria vendo o seu dono sofrendo. Por isso gritava tanto.
Sua mãe nunca devolvia as bolas. Imaginava que aquele barulho trazia sofrimento ao filho.
Fiquei mudo.
Até que Bernardo, percebendo meu silêncio, murmurou:
- Na verdade eu gostava quando tinha jogo. Você não imagina nas férias, quando o silêncio era completo. E naquela época nem o Sport me dava alegria...
Verdade. Foram os anos do Hexa do Náutico. Do Penta do Santa Cruz.
Despedi-me. Deixei meu telefone com ele. Saí pensativo pelas ruas do Recife.
Eu pensava nas bolas e nos muros. Nas distâncias que separam quintais.
Algo em mim nunca mais foi o mesmo.
Hoje, quando o Náutico perde. Quando o Sport vence. Lembro sempre de Bernardo e de outros meninos como ele.
E agradeço a vida e a Deus.
Deus que sabiamente fez o dia e a noite.
A vitória e a derrota.
Para que o sorriso e a lágrima jogassem bola nos dois lados do muro.
Toda glória do mundo é passageira. Principalmente nos campos de futebol. Os gols, os abraços, os aplausos podem terminar de repente. Num pênalti mal batido. Numa despedida ingrata.
Numa curva da estrada.
A glória do mundo é passageira. Ela nos veste de falsos amigos. E nos traga nos bares e noites da vida. Como se as arquibancadas lotadas sempre fossem existir. E os microfones e manchetes fossem diamantes eternos.
A glória do mundo é passageira. Ela se encerra em um sanatório de Barbacena. Numa mesa de sinuca da periferia de Campinas. Em um hospital no interior do Brasil.
A glória do mundo é passageira. Ela morre de cirrose, tuberculose, sífílis, melancolia ou vício. Morre de morte matada e morte morrida. Morre porque toda glória do mundo é passageira.
Jogadores do futebol se tornam imperadores muito jovens. Usam tiaras cobertas de ouro. São aclamados pelas multidões. Endeusados por belas mulheres.
Julgam-se imortais.
Como qualquer um de nós se julgaria, se tão jovens recebêssemos mirra, ouro e incenso.
Porque sempre que fazemos um gol nessa vida. Sempre que defendemos um pênalti. Sempre que nos julgamos eternos.
Devemos repetir para nós mesmos:
Toda glória do mundo é passageira!
Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Morais
O Brasil vai ser a sede da Copa do Mundo de 2014!
Mas perguntar não ofende: Qual o Brasil vai disputar o Mundial de 2014?
É a pergunta que anda nos céus, anda nas bocas dentadas e desdentadas de milhões de brasileiros.
Qual o Brasil de 2014?
O Brasil dos jogadores geniais, prodigiosos, ímpares?
Ou o Brasil dos 22 jogadores na Ucrânia, Turquia e Polônia?
Algum jogador brasileiro saberá falar português em 2014?
Ou seremos como a Irlanda, um país mais populoso no estrangeiro que em seu próprio território?
Qual o Brasil de 2014?
O país dos sequestros, dos bondes, dos Bopes?
Ou o país deitado em berço esplêndido e abençoado por Deus?
O país das favelas em progressão geométrica?
Ou o país que derrotou o analfabetismo?
Qual o Brasil de 2014?
O país em que a justiça e a cidadania sejam favas contadas?
Ou que ainda sejam cartas fora do baralho?
Haverá fome no Brasil de 2014?
Haverá filas nas emergências hospitalares?
Ou haverá apenas uma Arena no meio da selva tropical com propaganda multinacional?
A final da Copa de 2014 não será disputada em julho de 2014.
A final da Copa será disputada a cada dia dos 2000 dias que temos para organizar a Copa.
Porque, por enquanto, a Copa é apenas dos empresários e dos políticos.
Falta muito para que ela possa ser a Copa do povo brasileiro.
Povo que deveria se perguntar, desde já:
Qual o Brasil vai disputar o Mundial de 2014?