terça-feira, 8 de abril de 2008

Amizade (O conto do Budha e o seu discípulo)

Um dia, um discípulo perguntou a Budha: “Mestre, o que é a Amizade?” Budha sorriu docemente e respondeu: “Nada mais do que uma bengala forte e segura”.

O discípulo, depois de muitas semanas de meditação, voltou à presença do Mestre e indagou: “Como se pode comparar a Amizade com uma simples bengala? Com um pedaço de pau?”

Budha levou o discípulo até a margem de um rio e mostrou-lhe a neblina baixa que impedia de enxergar o outro lado e falou: “Imagine que você tem de atravessar este rio e que a neblina não lhe permite ver além de uns poucos passos à sua frente. A trilha de pedras, que é o único caminho para o outro lado, é formada por rochas lisas, redondas e parcialmente cobertas pela água. É uma trilha muito perigosa... Uma queda, um escorregão, e não haverá como se salvar. O que é que você faz”?

Novamente o discípulo se recolheu para meditar sobre as palavras de seu Mestre e, depois de outras tantas semanas, voltou para dizer: “Eu faria uso de uma bengala, meu Mestre. Seria esse o sentido da Amizade?”

E Budha respondeu: “Sim. É esse o sentido da Amizade. Uma bengala, um apoio que será o seu auxílio para atravessar o Rio da Vida sem ter receio de escorregar em cada uma de suas etapas. A bengala é como a Amizade, firme, segura, eficiente, capaz de sustentar o seu peso num momento difícil, numa passagem que somente as suas pernas não seriam capazes de agüentar, mas com o apoio da bengala, você cria novas forças, você adquire uma nova energia e se torna capaz de vencer o obstáculo. E é por isso que a Amizade, como a bengala, tem de ser firme e forte. Ela precisa agüentar todo o seu peso, às vezes. E é também pelo mesmo motivo que a Amizade, como a bengala, deverá ser bem cuidada. Para que nunca se deteriore, para que não apodreça e se torne, de repente, frágil e quebradiça. Uma amizade é algo vivo, algo que necessita de cuidados para não morrer”.

O discípulo recolheu-se novamente por mais algumas semanas. Finalmente, ao tornar a aparecer diante do Mestre, falou: “Mestre, sendo a Amizade o ponto de apoio dos homens, quando todos se encostarem uns aos outros, todos se apoiarem mutuamente, então, nesse dia, não haverá mais nenhum que venha a cair nas águas do Rio da Vida... Não é assim?”

Budha não respondeu. Limitou-se a olhar para a frente, os olhos perdidos no infinito de suas meditações.

Talvez estivesse lamentando o fato de saber que isso jamais viria a acontecer.


Autor Desconhecido

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Bushido

Eu não tinha pais.
Eu dotei o céu e a terra como meus pais.
Eu não tinha casa.
Eu adotei estar consciente como minha casa.
Pra mim não existia vida e morte.
Eu adotei a respiração e a aspiração como vida e morte.
Eu não possuia meios.
Eu adotei a compreensão como meu meio.
Eu não possuia habilidades especiais.
Eu adotei a moral como minha habilidade especial.
Eu não possuia olhos.
Eu adotei ser rápido como a luz como meus olhos.
Eu não possuia ouvidos.
Eu adotei a sensibilidade como meus ouvidos
Eu não possuia membros.
Eu adotei a agilidade como meus membros.
Eu não possuia estratégias.
Eu adotei não desvanecer de pensamento como minha estratégia.
Eu não possuia projetos.
Eu adotei prever oportunidades como meu projeto.
Eu não possuia princípios.
Eu adotei me adaptar às situações como meu princípio.
Eu não possuia amigos.
Eu adotei meu coração como meu amigo.
Eu não possuia talentos.
Eu adotei ser persistente como meu talento.
Eu não possuia inimigos.
Eu adotei a imprudência como minha inimiga.
Pra mim não existia milagre.
Eu adotei levar a vida corretamente como milagre.
Eu não possuia corpo.
Eu adotei a paciência como meu corpo.
Eu não possuia armadura.
Eu adotei a compaixão e a solidão como minha armadura.
Eu não era iluminado.
Eu adotei a determinação como minha iluminação.
Eu não possuia espada.
Eu adotei a ausência de ego como minha espada.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O Buraco

"Dentro da casa tem um buraco, tem um buraco dentro da casa. O buraco se move da sala pro quarto, do quarto pro outro quarto, daí pra cozinha, de lá pro banheiro; às vezes cresce tanto que derruba as paredes e tudo vira um buracão só, que de tão fundo, fica frio. Aí eu encontro o parapeito do buraco, e me apoio no que não é buraco, é parapeito, e fujo. Vou pra rua.

Bebo, faço merda, grito, subo na mesa, fumo, cheiro, fodo com um com dois com três, faço suruba, lounge, jogo cerveja na cara dos outros, me esfrego no chão, bato de carro, apanho, cuspo, chupo uma buceta, chupo um pau, chupo balinhas. Volto e capoto.

Acordo e o buraco passou. Minha memória lacunar traz fragmentos de frases, congela instantes ou cenas inteiras da noite que dura mais que uma jornada de trabalho. Aí vem o trabalho propriamente dito e a sensação de que tenho vivido, produzo e me divirto, tudo em excesso, e tenho o que colocar no buraco, caso ele apareça.

Ao passo que o dia caminha, a luz cai e parece que ao cair da luz caímos nós também. Ops, eis novamente o buraco, e sua gargalhada muda, sarcástica:

— Achou que podia fugir, Baby?

Encaro o buraco. Não consigo encarar o buraco. Me lembra o medo do escuro, o medo do tigre que habitava as árvores retorcidas da estrada de Búzios, a Cuca, o Lobo Mau, o Bicho Papão. O buraco é nóia de gente grande.

Um amigo adepto das falhas subterrâneas, rei dos escombros, manipulador de psicotrópicos, me diz:

— Você não pára, né? Vive a mil.

Digo que sim só pra parecer que o meu buraco é menor, quase imperceptível, que eu sou bem resolvida, analisada, bacana, ativa, diferente dele, que pára, no buraco, e fica, na lama do buraco. Finjo que o meu cotidiano é mais alegre, que eu sou exuberante e feliz. Que eu conjugo bem o verbo viver.

Ainda na superfície ou quem sabe, de volta a ela, olho ao redor. E vejo que meus amigos todos também têm os seus super emptys, o buraco batizado na gramática da Lu Pessanha. E que muita gente fica como eu, vestindo peruca pra fingir que é outra pessoa e dançar nos bailes de carnaval sem o que o buraco te reconheça, lá, no meio da pista.

O problema é que cada vez que chove e ninguém me resgata do buraco, sem balada, sem saída, cada vez que sou obrigada a ficar aqui presa, percebo uma equação: quanto mais eu fujo do buraco, maior ele fica e, menores se tornam os sinais de que, de repente, ele poderá aparecer.

Agora ele me pega desprevenida, de assalto, a qualquer hora do dia e da noite. No meio da rua, numa festa, no bar, no trânsito, em casa. Grande, profundo, preciso de um mutirão de gente pra me tirar de lá. Guindaste, corpo de bombeiro, defesa civil? É pouco. Eu saio, ele se vai. Mas volta."

Antonia Pellegrino

Ismália - Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar

Cada dia Melhor...

Algumas vezes acordo e, a vida não faz sentido,

Em outras ao me deitar é que o sentido desaparece e me pergunto porque levantar no dia que segue.

É nesse momento que avalio tudo que fiz, relembro cada minuto do meu dia em busca de respostas para tal pergunta,

E às vezes até encontro, simples como saber da necessidade de água, eu preciso fazer melhor.

Gabriela Costa

quarta-feira, 26 de março de 2008

Literatura...

(...)

Para falar de uma coisa, Machado fala de outra. Para pensar sobre uma coisa, nos leva a pensar – e a "ver" – outra. É nas entrelinhas, como dizia Clarice Lispector, que a literatura se escreve. Jogamos a isca – a narrativa literal. Mas, quando essa isca fisga o que realmente interessa, dela já não podemos nos livrar, porque isca e coisa se misturaram. Essa mistura entre o que se diz e o que não se diz, o que se pensa e o que não se pensa, o que se escreve e o que não se escreve é, enfim, a literatura.


José Castello

quarta-feira, 19 de março de 2008

O mar onde encontro a felicidade

O mar onde encontro a felicidade
todos podem admirar,
mas só os mais aventureiros
poderão lá chegar.
É de uma imensidão
que não tem fim.
De uma bravura sem igual.
Mar que sem fazer distinção,
recebe todos no seu areal.
Agrada aos que dele não tem medo,
que nas suas ondas se aventuram,
mas não esquece
os que não tem coragem para tal.
E é nos seus recantos,
cheios de encantos,
onde as ondas batem nas rochas,
mas não as passam,
que os mais medrosos o abraçam.
No mar onde encontro a minha felicidade,
não há poluição.
É um cantinho bem escondido,
onde o Homem não pôs a mão.
E quando chega a noite
na minha cama ao me deitar,
fecho os olhos
e ouço as ondas nas rochas a bater.
É o meu mar a convidar-me,
para quando nascer o Sol,
com ele me envolver.


Paula Loureiro